quarta-feira, 9 de junho de 2010

ADEQUAÇÃO AMBIENTAL E OS SISTEMAS AGROFLORESTAIS NA AGRICULTURA FAMILIAR - Continuação

Dando continuidade no assunto que iniciamos aqui na postagem anterior, "Adequação ambiental e os Sistemas Agroflorestais na Agricultura Familiar", vamos falar agora, como podemos entender melhor o que são os sistemas agroflorestais ou agroflorestas e como podemos, a partir desta prática, cumprir a legislação ambiental e ainda com isso, proporcionar bem-estar social, diversidade de renda e produtos, segurança alimentar e equilíbrio ecológico ao mesmo tempo.
Boa leitura e até a próxima postagem sobre o assunto.

O QUE SÃO OS SISTEMAS AGROFLORESTAIS?

Na agroecologia os Sistemas Agroflorestais (SAFs) ou Agroflorestas (termo desgnado no Brasil) podem ser entendidos como coletivo de espécies ou consórcios de plantas, sendo parte delas nativas, utilizadas em conjunto com cultivos agrícolas e também com animais, num mesmo espaço.


A Legislação Federal define como Sistemas de uso e ocupação do solo em que plantas lenhosas perenes são manejadas em associação com plantas herbáceas, arbustivas, arbóreas, culturas agrícolas, forrageiras em uma mesma unidade de manejo, de acordo com arranjo espacial e temporal, com alta diversidade de espécies e interações entre estes componentes.
Dentro da sustentabilidade podem ser estabelecidos numa seqüência de tempo, podendo reproduzir todo o equilíbrio de um ambiente natural como uma mata ou floresta e toda a sua biodiversidade.

O QUE SÃO PRODUTOS FLORESTAIS NÃO-MADEIREIROS?
Os produtos florestais não madeireiros, como o próprio nome indica, são todos os produtos advindos da floresta que não sejam madeira, como: folhas, frutos, flores, sementes, castanhas, palmitos, raízes, bulbos, ramos, cascas, fibras, óleos essenciais, óleos fixos, látex, resinas, gomas, cipós, ervas, bambus, plantas ornamentais, fungos e produtos de origem animal.

ALGUNS BENEFÍCIOS NA UTILIZAÇÃO DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS
A utilização das técnicas de sistemas agroflorestais é de grande importância e já são praticadas por comunidades tradicionais e também vem sendo amplamente difundidas há bastante tempo. Compatibiliza as atividades sócio-econômicas e contribui significativamente para o aumento da biodiversidade das unidades familiares e vai de encontro a adequação à legislação ambiental.

O agricultor familiar pode e deve adotar os SAFs para aumentar de forma sustentável, a renda familiar e tirar proveito das suas vantagens potenciais quanto à segurança alimentar, saúde, qualidade de vida, maior envolvimento dos filhos e a sua própria permanência na propriedade rural.

Os SAFs ou Agroflorestas, possibilitam um maior equilíbrio ecológico, com proteção do solo e dos recursos naturais, a diminuição no uso de insumos externos, a diversificação na produção tanto para a mesa do agricultor, como para geração de renda a curto, médio e em longo prazo.

Os sistemas agroflorestais são importantes porque conciliam a recuperação florestal e as atividades agrícolas como requisito para o desenvolvimento sustentável (“Agenda 21 brasileira”, Ministério do Meio Ambiente).

Existe possibilidades de implantação e ampliação dos SAFs em áreas já ocupadas da propriedade com espécies que produzem em períodos diferentes do ano. Como podemos observar no exemplo abaixo:
• Curto prazo: hortaliças, abacaxi, banana, aves, abelhas, mandioca, arroz, feijão, milho, maracujá, batata doce e outras;
• Médio prazo: café, palmito, citrus, espécies melíferas, outras fruteiras, suínos, cabras, bois e outros;
• Longo prazo: em sua maior parte compostas por frutíferas tardias, palmitos, sementes para propagação, lenha, artesanato, madeiras, etc.


ASPECTOS ECOLÓGICOS RELACIONADOS AOS SAFs

- Promovem a conservação do solo, devido o aumento da cobertura no solo, gerando matéria orgânica, umidade e fertilidade para a terra;
- Proporcionam o aumento da biodiversidade, protegendo e incrementando fauna e flora silvestre;
- Colaboram para a recuperação de áreas degradadas, a proteção dos recursos hídricos e na regeneração das matas ciliares, além da manutenção dos recursos naturais dos ecossistemas de entorno como p.ex. as unidades de conservação;
- Favorecem a ligação entre remanescentes e fragmentos florestais nativos criando corredores ecológicos;
- Prestam serviços sócio-ambientais para a sociedade;

ASPECTOS SÓCIO-ECONÔMICOS

- Geram grande variedades de produtos em épocas diferentes do ano;
- ajudam na niversificação da produção e no aumento de renda;
- Garantem a segurança alimentar e estímulo ao auto-consumo na unidade familiar;
- colaboram na forrmação da consciência ambiental, minimizando conflitos ambientais entre os agricultores e o poder público e;
- Proporcionam a melhoria da qualidade de vida para as famílias.

TIPOS DE SISTEMAS AGROFLORESTAIS PARA A PROPRIEDADE FAMILIAR
Podemos verificar a partir de experiências existentes e na prática com sistemas agroflorestais vários consórcios ou arranjos que são desenvolvidos, além de objetivos mais específicos de interesse por seus condutores.
A possibilidade de trabalhar a diversidade, aproveitando bem todos pequenos espaços, colabora para um exploração mais consciente no manejo da terra que é fundamental para a manutenção da unidade familiar.

No trabalho desenvolvido em campo diretamente na difusão desses sistemas a discussão deve-se basear num olhar mais completo para cada unidade familiar. Os SAFs podem ser trabalhados a partir de demandas estabelecidas tanto para consumo, renda e adequação ambiental de propriedades rurais.
Dentro deste contexto os sistemas agroflorestais na agricultura familiar podem ser discutidos da seguinte maneira:
• Agroflorestas biodiversificadas;
• Quintais agroflorestais;
• Pasto com árvores;
• Práticas agroflorestais;
• Pousio agroflorestal;
• Restauração de Áreas Protegidas e Degradadas;


- SISTEMAS AGROFLORESTAIS BIODIVERSIFICADOS:
São Sistemas multiestratificados com intervenções periódicas, como podas no estrato dominante e intermediário, visando o controle de luminosidade, a fertilização através da biomassa gerada pelas espécies, colheita e replantio de espécies ou manejo seletivo, como roçadas em plantas de coberturas de solo introduzidas ou espontâneas.
Podem ser manejados conforme interesse do agricultor, seja para seu uso próprio ou como interesse comercial. A maioria desses sistemas tem uma presença grande de espécies entre nativas e agrícolas.

Na Mata Atlântica, em muitas experiências com agrofloresta desse tipo praticadas pela agricultura familiar, representa diversidade entre 30 a 90 espécies/hectare.

  - QUINTAIS AGROFLORESTAIS

Visam diretamente o consumo da família e normalmente são estabelecidos desde espécies como ervas (temperos, condimentos, medicinais), até espécies mais tardias (frutíferas, palmito, lenha, etc.). Ainda, muitas vezes nos quintais existem espécies que são utilizadas unicamente com a função ornamental e também como sombra.

Os quintais agroflorestais são fundamentais do ponto de vista social porque concilia a segurança alimentar atrelado a grande diversidade de produtos.

- SISTEMAS SILVIPASTORIS OU PASTO COM ÁRVORES:
São caracterizados pela combinação de árvores, arbustos ou palmeiras com plantas forrageiras herbáceas e animais.
Este sistema permite um melhor aproveitamento das áreas que normalmente por falta de conhecimento de consórcios existentes, são utilizadas unicamente para a pastagem animal. Com um planejamento bem feito, é possível diversificar a própria pastagens com espécies forrageiras, melhorando assim a alimentação do gado e ainda, aproveitar o espaço para produção de espécies madeireiras.
Existem vários desenhos que podem ser estabelecidos, conforme sugerido pelo Manual Agroflorestal tanto da Amazônia, como da Mata Atlântica, 2008, MDA. http://www.scribd.com/doc/14513392/Manual-Agroflorestal-da-Mata-AtlanticaREBRAFMDA . O objetivo sempre são os mesmos.


Desenhos em Bosquete:
Neste sistema, o que facilita é a manutenção das espécies em áreas que podem ser cercadas em formato circular e realizado a implantação das espécies de interesse, sejam elas: madeiras, melíferas, frutíferas, etc. variando conforme o interesse do agricultor.


Desenho Uniforme:
Este sistema pode ser considerado mais difícil de ser estabelecido quando o agricultor necessita de uso contínuo ou ao mesmo tempo da area de pastagem, principalmente quando a propriedade tem uma área abaixo de 30 hectares. Esta consideração está na necessidade de proteção das espécies introduzidas, devido o contato físico com os animais. Fica mais difícil cercar uma de cada.

Em exemplos na região amazônica onde as áreas são maiores, estas são divididas e então é planejado o plantio de uma vez e após 03 anos, quando as plantas estiverem formadas e resistentes, os animais são liberados para pastoreio.
O que pode ser realizado é planejar pequenos espaços e também ir procedendo o mesmo método ou então, utilizar umas das alternativas aqui sugeridas.

Desenhos em Curvas de Nível:
Este pode ser considerado um método bastante interessante não apenas para criação de animais, mas como também, pode ser utilizado para dividir as áreas de produção, cercar o entorno da propriedade, etc.
O sistema consiste em aproveitar as curvas de nível existente na propriedade (comum em assentamentos rurais), cercar toda a linha de cada lado e estabelecer o plantio de espécies de interesse como já citado, principalmente espécies arbóreas no meio. Mesmo sem a existência dessas linhas, é possível estabelecer esta mesma idéia com linhas horizontais cercadas e o plantio no centro em qualquer lugar da propriedade.
Além de criar uma proteção maior contra a erosão por exemplo, ainda funciona como quebra-vento e garante uma melhor diversificação e aproveitamento da propriedade.
VOCÊ SABIA?
O sombreamento parcial da pastagem, favorece um alimento mais macio e nutrivo para os animais.
É possível consorciar junto as gramíneas, espécies forrageiras de curto prazo para os animais, melhorando assim à alimentação e consequente produção.


- PRÁTICAS AGROFLORESTAIS
As práticas agroflorestais são intervenções que podem ser executadas nas propriedades para melhorar a produtividade em sistemas agropecuários de produção. Seguem alguns exemplos:
- Formação de cercas vivas e/ou uso de mourões vivos;
- Formação de quebra-vento ou de aceiros arborizados;
- Plantio em linha de árvores de crescimento rápido para indicar os limites de uma propriedade rural ou os limites entre suas unidades de produção;
- Formação de faixas arborizadas de proteção;
- Uso de tutor vivo (substituindo a estaca ou vara enterrada no solo para amparar uma planta que requer um “apoio”). (manual agroflrestal mata atlântica, 2008.)

- SISTEMAS AGROFLORESTAIS EM POUSIO FLORESTAL
 São Sistemas oriundos de capoeiras de estágio inicial de regeneração, caracterizados como sendo Sistemas de Pousio Florestal, onde é realizado intervenção com fins de produção agrícola em áreas com presença de espécies nativas.
Exemplos de manejo para agrofloresta desse tipo, podem ser vistos em agricultores quilombolas e caiçaras no estado de São Paulo, bem como também, agricultores assentados na região amazônica e comunidades tradicionais quando dispõem de um bom espaço de terra. Afinal, no pousio, deve ser considerado um tempo de descanso para a terra e a regeneração das espécies na área.

Em sistemas agroflorestais, é fundamental o cuidado e manejo com o solo e para isso, podemos ainda considerar as seguintes técnicas:

- TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO E FERTILIDADE DO SOLO
É de fundamental importância procurar ter mais cuidado com o solo, principalmente quanto à manutenção de sua fertilidade e de seu ciclo natural de fertilização. A cobertura a exemplo de um solo da mata, é vital para que este não fique exposto, protegendo-o de erosões e estruturando suas camadas.
A Rotação de culturas e plantios consorciados, plantios em nível, a cobertura do solo e o uso de adubação verde, podem ser consideradas como estas técnicas.

Na nossa próxima postagem, vamos falar especificamente sobre a recuperação de áreas de preservação permanente (APP) e reserva legal (RL), dando ênfase aos sistemas agroflorestais.
 Inté a próxima.

Um comentário:

Projeto Livre Escolha disse...

Olá senhor autor do glog sustentabilidade,
Boa Noite,
O meu nome é Afrânio Eduardo Amorim Ribeiro, eu sou aluno do curso técnico em florestas da ETEC- Cônego José Bento na Cidade de Jacareí de São Paulo.
Estou fazendo o TCC do curso sobre “Recuperação de mata ciliar pelo uso de SAF”, e estou precisando visitar uma pequena propriedade rural de uso familiar na região do vale do Paraíba. Precisamente entre a cidade de Aparecida e São Paulo.
Gostaria de saber se você conhece alguém que possa indicar para uma visita à propriedade com uma entrevista.
O meu E-mail para contato: afranioeduardo@yahoo.com.br

Desde já agradeço por sua atenção

REDE BRASIL RURAL

REDE BRASIL RURAL
BRASIL

Social Clique

Social Clique

Prefira Orgânicos

Loading...

Manejo Seringueira_RESEX

Manejo Seringueira_RESEX

Construindo, Conservando

Loading...

SC

Notícias do CNPq

Prato Cheio!

Prato Cheio!

CAMPANHA ECONOMIA SOLIDÁRIA - FBES

BIBLIOTECA DA AGROECOLOGIA - Conhecimento e Harmonia

Social Clique

Biblioteca da Agroecologia

Intercâmbio; Troca de Saberes...

Loading...

Agrofloresta Biodiversificada

Agrofloresta Biodiversificada
Loading...

Agrofloresta Funcional

Agrofloresta Funcional
Bananas (K) com Árvores (Ingá (N), Guapiruvú (N) e Embaúbas (P) - adubação e sombra

Extrativismo Sustentável

Pesquise no Blog

Carregando...

Minha lista de blogs

Intercâmbio = Troca de saberes

Intercâmbio = Troca de saberes
Agrofloresta em Comunidade Quilombola-Paraty/RJ

Uma experiência divertida e saudável com a família

Loading...